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Você é sem vergonha?

  • Foto do escritor: Ana Carolina Ribeiro
    Ana Carolina Ribeiro
  • 17 de mai. de 2021
  • 2 min de leitura


Quem aí cresceu ouvindo que fulano de tal é "um sem-vergonha", como se isso fosse o crime mais inafiançável que um ser humano pudesse cometer?


A vergonha é uma emoção que se manifesta cedo, mas não muito. Para termos vergonha, primeiro precisamos desenvolver consciência, senso crítico e viver dentro de normas sociais que excluem aqueles que não as seguem. Mas pra que serve a vergonha mesmo?


Inicialmente, a vergonha vem como alerta de risco de perda do amor. Quando somos pequenos, dependemos daqueles que nos alimentam e estas figuras são colocadas em lugar de destaque para nós. Quando o bebê não está vendo sua mãe, sempre considera o fato de que ela pode nunca mais aparecer e ele acabar morrendo de fome. Por isso os nenês choram quando estão sozinhos. Mas nessa fase da vida, chamada em psicanálise de fase oral, ainda não sentimos vergonha.


Quando iniciamos o processo de desfraldamento, conhecido como fase anal, começamos a aprender a controlar nossas necessidades fisiológicas e muitos padrões de atitude que vemos nos adultos são consolidados aí. E é nessa fase que começa a surgir a vergonha, quando somos criticados e coibidos por não fazermos cocô na privada. Sentir que não atendemos a expectativa dos nossos cuidadores nos traz frustração e vergonha.


Se as punições forem muito severas e humilhantes, a criança pode se tornar um adulto com vergonha de tudo e de todos. Esta vergonha está ligada a um medo de perda do amor do outro caso ele descubra que não somos tão bons quanto gostaríamos de ser. E aí entramos em uma seara muito obtusa, que envolve agirmos com base na ideia que fazemos do que o

outro espera de nós e do que precisamos fazer para "cumprir esse destino" de nos tornarmos aquilo que consideramos ideal.


Acontece que todo ideal é uma utopia e as pessoas que vivem presas no medo de passar vergonha acabam perdendo muito tempo de suas vidas infelizes e eternamente insatisfeitas consigo mesmas e com a

imagem que acreditam projetar na sociedade.


Ou seja, a vergonha acha que serve para nos proteger da frustração de descobrirmos que não agradamos o outro. Quando a gente se abstém de fazer coisas por vergonha, está sucumbindo ao domínio do incerto. Toda ação que colocamos no mundo nos traz possibilidade de sentir prazer quando as coisas saem como esperamos, ou dor quando elas não acontecem como a gente queria ou até precisava que fossem.


A verdade é que tudo é uma grande loteria e a gente nunca vai ser capaz de prever de verdade as reações das pessoas e como elas irão interpretar nossas atitudes. E mais ainda! Nunca saberemos como elas interpretarão nosso silêncio.


Estamos julgando e sendo julgados o tempo todo e a vergonha está aí para nos lembrar desse "perigo". Só que esse perigo só existe mesmo em nossas mentes e nos cenários catastróficos que imaginamos que acontecerão caso as coisas não saiam como a gente espera.


A verdadeira felicidade reside no ato libertador de abrir mão da vergonha e do medo do julgamento e começar a seguir verdadeiramente o que nos diz nosso eu interior. Mas para ouvir nosso eu interior, a gente primeiro precisa fazer as pazes com ele e a psicanálise é uma ótima maneira de conquistar essa liberdade.


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