
Décadas acreditando que o problema era você?
- Ana Carolina Ribeiro

- há 1 dia
- 3 min de leitura
O efeito Pigmalião negativo de Terrassier parte de uma ideia simples e devastadora: os ambientes não respondem ao potencial real de uma criança superdotada — respondem à versão dela que conseguem ler. E como não dispõem de instrumentos para ler a superdotação, o que leem é a versão mais problemática, mais inadequada, mais limitada que a criança apresenta.
O nome vem do mito de Pigmalião, que Ovídio narra nas Metamorfoses e que Bernard Shaw retomou na peça homônima: um escultor que cria uma estátua e a transforma em mulher real pelo poder de sua crença. Robert Rosenthal e Lenore Jacobson traduziram esse mito para a psicologia educacional em 1968, com o experimento clássico da Escola Primária de Oak, em São Francisco: professores que acreditavam que determinados alunos teriam um "surto de crescimento intelectual" viram esses alunos efetivamente obter resultados melhores, mesmo sendo a expectativa artificialmente induzida pelos pesquisadores. A crença do professor produzia comportamentos reais — mais atenção, mais calor afetivo, mais desafio — e esses comportamentos produziam desempenho real. O Pigmalião educacional estava documentado.
Terrassier inverte o mecanismo. Se a expectativa positiva pode elevar o desempenho, a expectativa negativa o deprime. No caso da criança superdotada em contexto escolar comum, o que o professor costuma ver não é o potencial — é o tédio, a impaciência, o questionamento das regras, o desempenho irregular.
Cada uma dessas manifestações recebe uma leitura redutora: o tédio vira desatenção, o questionamento vira rebeldia, a irregularidade vira preguiça ou desmotivação. O professor passa a tratar a criança como se ela fosse esse problema — e a criança, ao longo do tempo, começa a se comportar de acordo com essa expectativa.
O espelho que o ambiente oferece devolve uma imagem diminuída, e o sujeito se constitui, em parte, a partir dessa imagem.
Terrassier chama esse processo de efeito Pigmalião negativo porque funciona pelo mesmo mecanismo — a expectativa do outro moldando o comportamento e o desempenho do sujeito — mas em sentido contrário: em vez de elevar, reduz. Em vez de revelar potencial, o oculta.
Há uma crueldade específica nesse mecanismo no caso da superdotação.
O Pigmalião negativo clássico afeta uma criança que já tem dificuldades reais, tornando-as piores. O Pigmalião negativo da superdotação afeta uma criança que não tem as dificuldades que lhe são atribuídas — cria problemas onde havia apenas inadequação entre potencial e ambiente. A criança não é preguiçosa: está entediada. Não é rebelde: está intelectualmente sufocada. Não é desatenta: está ausente de um ambiente que não lhe oferece nada para estar presente.
O que torna esse efeito particularmente difícil de desfazer é que ele opera em dois planos simultaneamente.
No plano externo, os ambientes subsequentes herdam a leitura dos anteriores: registros escolares, encaminhamentos clínicos, avaliações de professores constroem uma narrativa acumulada que a criança vai carregando. No plano interno, e esse é o ponto psicanaliticamente mais relevante, a criança internaliza parcialmente essa narrativa. Não porque seja ingênua, mas porque a palavra do Outro tem peso constitutivo.
Kohut diria que o espelhamento inadequado deixa marcas no self. Lacan diria que o sujeito se constitui no campo do Outro — que a imagem que o Outro devolve participa ativamente da construção do eu. Terrassier não usa essa linguagem, mas o fenômeno que descreve é o mesmo: a repetição da leitura redutora pelo ambiente produz, ao longo do tempo, uma identificação parcial com ela.
É por isso que a dissolução do Pigmalião, na vida adulta, não é simplesmente corretiva. Não basta receber um novo diagnóstico ou uma nova leitura mais favorável. O sujeito precisa trabalhar, frequentemente em processo clínico, a distância entre o que foi dito sobre ele e o que ele é — e essa distância pode ser enorme, porque foi sendo construída ao longo de décadas.
É o que torna a identificação tardia um processo muito mais complexo do que uma revisão de hipóteses diagnósticas. O adulto não está apenas descobrindo que é superdotado. Está desfazendo, camada por camada, a arquitetura de uma narrativa que o ambiente construiu sobre ele— e que ele, em parte, aceitou.

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