Autismo e Transtornos Globais do Desenvolvimento
- Ana Carolina Ribeiro

- 9 de out. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 24 de out. de 2020
Os transtornos do espectro autista e demais transtornos globais de desenvolvimento estão presentes em pessoas de todas as idades, tendo influência clara durante a infância e fase escolar. Atualmente, é muito comum encontrar crianças diagnosticadas e possuindo acompanhantes terapêuticos individuais com elas durante todo o dia letivo e ajudando na realização e adaptação das tarefas solicitadas pelos professores regulares. Boa parte destas crianças também faz uso regular de medicamentos e acompanhamento multiprofissional, com psiquiatras, neurologistas, psicanalistas, psicopedagogos. Tudo isso sem contar o AEE, atendimento educacional especializado, momento diário da criança diagnosticada para que passe com um especialista da escola no contraturno com objetivo de fortalecer ainda mais os propósitos e resultados da educação inclusiva. Mas não foi sempre assim.

Os esforços conjuntos no intuito de fomentar a inclusão de pessoas com necessidades especiais se iniciaram em meados do século passado. Até então, todas as pessoas consideradas "deficientes" eram socialmente marginalizadas e relegadas a uma vida sem propósito, trancafiadas em casa, abandonadas em instituições ou até mesmo largadas à própria sorte na mendicância. Felizmente, a palavra e o conceito de deficiência caíram em desuso pois hoje entendemos que estas pessoas na verdade têm habilidades diferentes e não inferiores às das pessoas tidas como "normais". Até mesmo pessoas com questões consideradas como impedimentos físicos, como a surdez, por exemplo, acabam sendo muito superiores às demais em habilidades que acabam se tornando proeminentes como forma de compensação daquilo que as diferencia das demais pessoas.
As leis educacionais que defendem a inclusão, a obrigatoriedade de oferta do atendimento educacional especializado e que criminalizam a não aceitação de qualquer indivíduo por uma instituição educacional foram se consolidando aos poucos a partir de 1999. Isso significa que boa parte dos adultos de hoje que tiveram transtornos globais do desenvolvimento na infância e adolescência podem ter sofrido preconceito e discriminação durante toda a sua vida escolar, tendo estudado em uma época em que tínhamos que nos adaptar à escola e não ela a nós. Uma época na qual a maioria das pessoas com necessidades de aprendizagem especiais ficava entregue à própria sorte.

Muitas destas pessoas chegam ao set analítico atualmente já adultas, se reconhecendo em personagens autistas da televisão, vendo vídeos sobre transtorno globais do desenvolvimento e se identificando com os sintomas descritos. Sintomas estes que nos anos 80 e 90 eram tidos como "burrice", "incompetência" ou "incapacidade", gerando nestas pessoas muitas crenças limitantes de desamor e desvalor. Mesmo tendo boa parte delas já se acomodado e assimilado ( no sentido piagetiano de ambas as palavras, significando superação de desafios e adaptação à realidade que os cerca), encontrando maneiras de transitar de maneira funcional dentro das exigências da sociedade, a terapia em busca do autoconhecimento é sempre benéfica.
Se você se sente ou já se sentiu inadaptado, talvez você se encaixe nessa categoria de pessoas que por questões físicas ou de história de vida, acabaram crescendo e tendo que se virar sozinhas com os transtornos globais do desenvolvimento. Nunca é tarde para buscar terapia e aprender a transformar suas dificuldades em potencialidades!
A psicanálise entende a pessoa no espectro autista e/ou com TGD como sujeito de si mesma e não como vítima de suas circunstâncias. O psicanalista trata pessoas, e não os problemas, trazendo escuta ativa à medida que o cliente ensina o profissional a compreender suas motivações. O empoderamento surge a partir da análise sem juízo de valor de suas particularidades e da causalidade das estereotipias presentes. Por meio da determinação da função e funcionalidade de cada sintoma por meio do método psicanalítico, é possível pulverizar crenças limitantes e que possam estar impedindo a pessoa de se sentir um ser humano completo, pertencente e importante, condições indispensáveis para o desenvolvimento feliz, saudável e realizado do ser humano.



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